A origem da semente

Depois de ler, e reler por milhares de vezes, o livro “O escuro da semente”, de Vicente Franz Cecim, publicação LetraSelvagem, questiono-me se ainda é necessário definir se um texto é poesia ou prosa, ou qualquer outra forma de classificação. Há nessa obra o mesmo mistério que vem da selva Amazônica, impossível de ser desvelado por único elemento ou conceito, e assim também impossível de ser construída e interpretada em exclusiva poesia ou prosa. 

A Amazônia persona, ser de espírito e corpo, no texto de Cecim, se faz de forma inédita como é a natureza enigmática das coisas que a compõem, porque afinal estamos diante de um universo de incontáveis camadas de entendimento. A multiplicidade de vozes tem seus ecos na diversidade da linguagem, que vem de sua própria essência matriz, a semente.  

O tudo surge do desejo da beleza. Aqui não se pode negar que Um se alimenta da fonte vital do outro UM. Como se houvesse uma alteridade das palavras, pois uma palavra só se constrói a partir da outra.

Assim, em “O escuro da semente”, o termo outrar, tão observado nos textos de Fernando Pessoa, se coloca de uma forma viva na matéria escrita de Cecim, na medida que uma palavra só existe quando se encontra ao lado de outra, compondo a estrutura de uma página, talvez uma página negra, para trazer o significada da sobreposição de coisas distintas.  

Ainda pode-se dizer que a forma de escrita de Vicente traz um universo em sua composição, há uma coerência com o que Clarice Lispector experimentou com a Literatura. Embora aqui, em “o  escuro da semente’, o teor esperado não pretenda se colocar diante do mundo de forma coerente, como não pretendia Clarice, mas também não pretende trazer para nenhum nível mental, mas perpassar num obscuro, no mundo invisível das coisas.

O universo então se metamorfoseia, das Amazônias em Andara, da contra palavra, com uma letra introduzida, ou uma letra subtraída na palavra, ainda, a palavra e seu próprio reflexo, numa percepção que poderia se dizer impossível estar na clássica literatura, e sim, talvez, no que poderia se dizer na contra literatura. Uma contra literatura vista como um movimento, sem ainda não dissolver o livro, pois nele há sempre que obter o registro de tudo possível  captado em “O escuro da semente”. 

O livro possui uma dinâmica peculiar, um ritmo que conduz a leitura de forma leve e faz seguir a narrativa, embora não esteja segura se é possível aqui falar de narração. Há uma interlocução dentro do próprio livro, Oniro, que trabalha junto com o leitor na construção do texto que será interpretado. O leitor para penetrar no texto deve mergulhar sem o mínimo receio e se deixar metamorfosear pelo o que lê. Transformar o entendimento do que a leitura proporciona, pois nesse texto todas as percepções se desdobram, se refazem, se renovam.

É um livro para deixar ao alcance dos olhos, na sala, na estante, para ler uma vez que outra, em voz alta, sozinho ou junto a um amigo. É um livro marcado por uma beleza erótica de ressurgimento das coisas, mas que diante de sua profundidade, jamais perde o encanto, pois sempre se revelam outras camadas nas novas leituras. 

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