A MOÇA ALADA NA MASMORRA

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Graziela Brum

*Texto publicado originalmente na Revista Vício Velho

O texto que segue relata a minha experiência com dois homens, escritores. Não é exatamente um triângulo amoroso, mas quando um deles esteve em apuros dias desses, o outro me ligou pedindo socorro. Então, vejam vocês, quero falar de Literatura, de poesia e de amizade. Quero falar desses dois homens: Vítor Miranda e Daniel Wachwicz.

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O primeiro homem, Vitor Miranda, escritor. Desculpa, escritor é quem escreve. O caso desse moço é outro, com lua em Saturno, passando por Marte e focada em Vênus, o cara é um artista. Homem bonito, mas por nada produto de consumo. Escreveu recentemente A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty, Editora Desconcertos, com linguagem original e ritmo enfurecido. Vítor circula na noite paulista com sua banda A Banda da portaria. Cantor? Músico? “Não, não! Sou o poeta da banda”, diz. Aliás, banda que tem nome de um dos seus primeiros livros. Ah! Sobre o nosso relacionamento, pois bem, nunca falei “eu te amo amigo”. É simples, trocamos mensagens no WhatsApp, declamamos em saraus e falamos de Literatura. Sempre estamos disponíveis para apoiar a arte um do outro. Um relacionamento consolidado na poesia, que se desdobra em admiração, respeito, lealdade. Ah! Mas me deixa falar de A moça caminha Alada sobre as Pedras de PARATY e aqui peço licença ao leitor para sair da narrativa crônica descomprometida para penetrar numa outra linguagem, mais poética:

A MOÇA CAMINHA ALADA SOBRE AS PEDRAS DE PARATY

É possível encontrar o Brasil, redescobrir a terra paraíso, perdida em chamas, a terra fome fartura, a fonte da humanidade que recria o mundo, o olho gênese, palavra do que sempre foi e ainda há de ser. O tupi-guarani de Vitor Miranda traz um Brasil que o Brasil ainda não conhece.  No seu mais recente livro, A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty, há um fluxo desconexo floema conexo de morte e vida. Poderia se dizer que há uma desconciência, justo porque a linguagem se desdobra e nos leva a desconfiar, que mesmo o autor, desconheça todas as camadas que emergem no desvelar das sobreposições dessa narrativa. Não que o autor não tenha habilidade, pelo contrário, mas existem mundos dentro de mundos dentro de mundos que se faz necessária uma mesa de amigos leitores vorazes de todas as vertentes para encarar a missão de entendimento da obra. Impossível! A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty sempre terá o que dizer. Verborrágica, decifra o mundo para depois enterrar tudo que ali concluiu, visto porque nessa obra de Vitor não é possível concluir, apenas navegar pelos caminhos pedregosos da cidade histórica. Digo, caminhar, eis o verbo desse livro. Caminhar caminhar. Aqui, torna-se evidente, a realidade é impossível, e só sobrevive-se na poesia. Assim, o texto livro agora sem gênero categoria, é o romance conto, é letra, é música, carimbó, jazz, é poema. A moça alada voa e deixa as pedras, que fiquem em Paraty. Assim, o texto de Vitor se constrói e nos fala dos dramas existenciais, fala do que faremos com o que fazem do Brasil, com o que nos fazem.  Recomendo aqui uma obra que deve ser lida sem compromisso, porque se for levar a sério, vamos ficar loucos de lucidez.

***

O outro homem é Daniel Wachwicz. A primeira vez que o vi foi no bar Patuscada, do amigo-editor Eduardo Lacerda, pensei duas vezes antes de me aproximar, pois em mim a certeza que jamais aprenderia a pronunciar seu sobrenome. Minha intuição estava certa, mas o Daniel é o Dani, e o Dani é só o Dani, nenhum outro poeta pode se dizer o poeta Dani. Homem alto, não abre mão do seu estilo. Qual estilo? Sua própria poesia. Traz a beleza de um ser humano convicto, que defende suas ideias e se posiciona num mundo em que todos vacilam. Masmorra, livro que lançará agora em novembro, pela Editora Patuá, mostra uma poesia madura, ainda que não se possa afirmar nada em poesia, pois sempre é uma construção do autor com ele mesmo e do autor com o mundo. No caso do Dani, a potência, a lucidez, a maldade são elementos que aparecem para mostrar a experiência do ser humano com o que o cerca.  Daniel é formado em Letras e é professor de português e inglês, com três livros lançados. Entre eles, um livro de contos, com título As musas estão esmagadas no asfalto, que considero excelente. Ah!, mas preciso dizer o que Dani tem de melhor: a risada. Sinto-me realmente feliz quando o encontro, porque sei que aquela manifestação em risos convulsionados surgirá do nada, espontânea, no meio da conversa, o que me faz pensar que ali acontece um encontro de amizade e amor. Bem, vamos lá, peço aqui novamente licença para delirar e falar um pouco do novo livro do Daniel:

MASMORRA

Há um silêncio que nos berra ao ouvido: ACORDA. Uma dor que não cede, que nos toma as vísceras a extirpar até a última gota de sangue, ninguém permanecerá impune. Todos chicoteados no tronco das nossas próprias apatias. Entenda, você é culpado, culpado! Nessa Masmorra, apodreceremos pela insensatez das bocas caladas. Nem Deuses, nem demônios salvarão a humanidade perdida na obscura ideia de desistência, d-existência, não-existência, vácuo, vazia. E desistimos do mundo ao desistir do homem, zumbis de consumo, compramos tudo, menos alma, menos poesia. Aqui o terror, a face-verdade de quem somos ou nos tornamos. Daniel mostra sem medo o palco da descrença, maldade em que atuamos. O Poeta, em sua visão cáustica, não deixa escapar nada que corrói a relação do homem com ele mesmo e do homem com o outro e com a natureza. Desvela a estupidez e a inércia humana; e nos instiga a pensar quem somos quando encolhemos os ombros e baixamos a cabeça nesse vai e vem pendular do ego e submissão. Masmorra não é para os menininhos medrosos e para as mocinhas da superfície. Um livro para ler atento, longe de penhascos, pois não duvide, aqui ninguém escapa dos seus próprios abismos.  Uma poesia inédita de Masmorra:

Brumadinho

Sonhos soterrados
Na lama bruta,
Bocas silentes
Em atemporal terror.

Não há deuses
Entre os escombros.
As carnes dormem
Na lama eterna
Que afogam vidas

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Graziela Brum
 é de Arroio Grande/RS. Escritora. Idealizou o projeto literário Senhoras Obscenas, o qual coordena junto com a historiadora Adrianá Caló. Participa do coletivo Escritorxs de Quinta, venceu o concurso ProAc categoria romance com o texto “Fumaça”. Publicou com Editor Lumme “Vejo Girassóis em você”. Em breve lança o romance Jenipará, vencedor ProAc 2019, pela Editora Reformatório.

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