Jenipará

Jenipará é um texto ficcional, categoria romance, que conta a história dos moradores de uma cidade construída à margem do rio Jarurema, no baixo Amazonas.

“Cantar é ter o coração daquilo“

Caetano Veloso (em Genipapo Absoluto)

Escutar = indica presença. Escutar o canto = indica a escrita.

A Graziela Brum tem uma dicção excelente, articula todas as consoantes com um espaço generoso para instalar as vogais entre elas. Um jeito gaúcho de falar com a boca cheia e o olhar próximo do olhar do outro. Nesta história, as palavras são muito articuladas entre si. A autora passou vários meses ouvindo rádios do Pará, do Amazonas, rádios caboclas e indígenas, e foi anotando as expressões, com suas melodias próprias. Depois, continuou coletando sons, nas viagens que fez para Alter do Chão no município de Santarém, no estado do Pará, na beira do rio Tapajós. Anotando as histórias que se abriam no caminho do mercado, nos cheiros das frutas, no gosto da comida, no viajante venezuelano, no barqueiro, no pôr de sol e nas conversas com o povo “do lugar”. Tudo apresentava um lugar, e a partir daí, que esse romance/floresta se faz.

Jenipapo é um neologismo, entre tantos nessa história. Encontro entre e o fruto do jenipapo e o Pará. O jenipapeiro é uma árvore que pode chegar a vinte metros, da família Rubiaceae, e tem seu habitat natural nas várias formações florestais de várzeas úmidas em quase todo o país. Em Jenipará as árvores da floresta falam, ou melhor dizendo, elas narram a sua própria história. A autora escolheu tomar o partido da floresta, com seus rios, chuvas, arco-íris, cachoeiras. É preciso tomar o partido das coisas! Como disse Francis Ponge: “Pretendo dizer numa palavra a Natureza em nosso planeta. É aquilo que, a cada dia, quando acordamos, nós somos”. Graziela também escolheu tomar o partido dos habitantes da floresta: caboclos, indígenas, ribeirinhos, seringueiros, mas, acima de tudo, tomou o partido do encantamento. No mistério que sobrevive, no mistério que resiste ao método pseudocientífico, ao racionalismo e ao reacionarismo. Sem mistério não há vida, diz Rudá, um dos personagens centrais dessa história.

Desde o início da formação brasileira, do ‘descobrimento’, a alma é o lugar da exploração, da invasão. O que não pode ser entendido pelos colonizadores é subjugado, catalogado, esquartejado, classificado e usurpado. A Graziela Brum, além de escritora – este é seu terceiro romance – é uma das organizadoras, ao lado da Adriana Caló, de um dos sites mais completos sobre a obra de Hilda Hislt, talvez daí ela tenha ampliado o olhar para a condição precária da alma nesses tempos assombrosos: “Que te devolvam a alma/ Homem do nosso tempo/ Pede isso a Deus/ Ou às coisas que acreditas/ À terra, às águas, à noite/ Desmedida, / Uiva se quiseres, / Ao teu próprio ventre/… /Escancara a tua boca/ Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA”, clama em alto e bom tom, Hilda.

Num mundo de desencanto e desolação, a destruição pelo garimpo, pela ganância, pelo agronegócio, derruba e coloca fogo na mata. “A queimada é um diabo sem nome” e “um Deus perdido por entre as chamas. Um Deus com medo”. Esse livro é escrito justamente quando a Floresta Amazônica vive um dos momentos mais drásticos da nossa história, num desrespeito ecológico imenso, legitimado por uma política ambiental incoerente. “Fomos à prefeitura fazer papel de palhaço, estava tudo combinado entre eles” – dizem os seringueiros no romance.

E o que fazer para impedir o absurdo? Jenipará não responde, mas conta. Descreve a nossa história. Feita de coragem e deslumbramento: “Sou eu, mulher-bicho, mulher-mato, aqui em corpo, em espírito, ando com lança na mão”. E conforme os personagens vão se apresentando, nós vamos ampliando nossa linguagem e vamos nos reconhecendo entre Joane, Genara, Zé Bidela, Rudá, Morocha, padre Dias e outros tantos, nesse Brasil em combustão, onde atônitos nos perguntamos: quem são os brasileiros? Ou na melhor das hipóteses: quem somos nós?

E “quem é capaz de dizer quem é senão estiver nu diante de si?” Talvez o corpo nu seja uma grande metáfora do que não pode ser visto, do pecado, na negação do prazer, do bárbaro desconhecido e da alteridade. Em variações do corpo selvagem, Eduardo Viveiros de Castro alerta e esclarece: “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é. (…) O caipira é um índio, o caiçara é um índio, o caboclo é um índio, o camponês do interior do

J EN IPA R Á 9 Nordeste é um índio.” Conhecer esta história pode nos ajudar a olhar no nosso espelho narcísico, cego e antropocêntrico e reparar que existe algo além do homem que vê sua imagem no lago. Existimos no próprio lago, na luz que incide na floresta, no prazer do corpo em contato com a água pura, nas folhas das árvores que flutuam livres na superfície da água, nos insetos que sobrevoam e polinizam, nas pequenas gotas que evaporam transformadas em vapor, nas flores desabrochando com cores e cheiros maravilhosos, nos seres anímicos, no perfume das frutas maduras, nos peixes prateados.

Quem sabe, possamos começar olhar de um novo ponto de origem “apenas eu floresta, inteiro floresta, apenas” e talvez, viver mais perto do fluxo do mundo, da carta aberta do mundo, com sua dança extática, extasiada e em movimento, aonde “o rio segue o próprio caminho, o percurso que quer, e assim, nesse jeito dele, o rio é terra, é pedra, é mar.”

Natália Barros,

poeta, cantora e atriz

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